terça-feira, 10 de novembro de 2020

RELATOS SOBRE OBJETOS E MUDANÇAS

No último domingo era aniversário de minha irmã. Levei a namorada pra ir junto. Foi desafio. Não sabíamos o que iria acontecer. Ela e eu. Juntas. Depois de nos assumirmos pra família. Era desafio. Era medo. Tensão. Empolgação. Ela, eu, família, sexualidade, assumir, estar junto, tudo numa mesma casa, na casa da irmã, numa casa de afeto. Da minha irmã. A mulher que mais amo na vida.

E chegamos, foi leve, ninguém fez cara feia ou pose. Fomos passeando pra apresentar a casa e realmente passeamos por cômodos e memórias e lembranças e objetos. Minha irmã guarda tudo que se pode guardar. A casa dela está cheia de móveis, objetos, fotos, roupas, lembrancinhas. Da vida dela e da minha. Ela não se desvencilha de nada.

Quando chego lá, sou transportada para as muitas suzi´s que já fui. Lá vejo meus frufrus cor de rosa, porque tive uma fase que só usava essa cor. Tem ursinho, tem porta clips de pompom, tem quadrinhos fofos e muita meiguice. Tem móveis e quadros da época em que eu era secretária administrativa. Tem álbuns de fotos a disposição na sala. E ela tem muitas roupas que me remetem as muitas fases e pessoas que já fui e me transformei. Ela guarda papel de carta, guarda álbuns de bandas que amávamos na adolescência. Guarda cartinhas e até a minha lembrancinha de crisma.

E eu não guardo nada dessas coisas.

Minha mãe que passeava conosco por aquele lugar logo disse:

- A Suzi foi se mudando e deixou os objetos pelo caminho.

E então nessa conversa surge a sogra da minha irmã: 

- A Zana guarda com cuidado e apreço tudo. Ela é caprichosa.

Fiquei com as duas frases ecoando na mente. Por que não guardo? Por que tanto quero deixar as coisas pra trás? Não me importo?  E acho que sempre preferi não levar nada junto. Prefiro deixar os objetos porque assim as histórias morrem com eles. 

Não são histórias tristes, mas são histórias que acabaram. Eu precisei morrer muitas vezes e deixei os objetos morrerem. A cada nova etapa, a cada nova Suzi, novos objetos e memórias. A Suzi que usava apenas rosa não existe mais e eu a neguei por anos. Hoje uso rosa e me exibo e é a cor favorita da minha palhaça. Porque acho que fiz as pazes com algumas dessas suzi´s. Muitas morreram. Renasceram. Ressurigiram.

Quando trabalhei no escritório de advocacia eu costumava ter uma postura de gente séria. Lá não tem muito espaço pra brincar, porque tudo é jurídico é passível de processo, é estruturado, anotado, segmentado. Imagine só eu sair desse mundo e cair nas garras da Arte. Foi um grande pulo. Então as roupas que usava no escritório, os sapatos, botas e saltos altos ficaram pra trás. Maquiagem. Joia. Prancha. Doei, vendi. Migrei do salto pra rasteirinha, saia longa e cabelo de dread. Coisa de artista recém convertido. E essa mudança toda foi impactante e os saltos precisaram morrer.

Hoje não tenho dread e nem uso mais rasteirinha ou saia longa. Hoje tenho outras roupas e sinto que elas também não me representam mais. Ando com vontade de jogar tudo fora de novo. De deixar as roupas morrerem. Porque eu morri tanto nos últimos anos e renasci de novo. 

Depois do domingo e de tanto pensar, percebi que queria ter guardado um pouco desses objetos. Que abandoná-los foi abandonar-me também.  Sempre tive facilidade em eliminar. Em dar aquela geral e eliminar tudo. E assim com objetos. E assim na vida. Questionam-me como consigo pular tão fácil de um relacionamento a outro. Como consigo esquecer uma história. Como consigo lidar com dores. Eu não lido. Eu as assassino. Deixo espalhada pelo meio do caminho. Minha irmã junta meus cacos. 

Estou prestes a me mudar de novo. Sair de Blumenau e retornar pra Canelinha que tanto amo. Olho pra tudo que tenho aqui e acho muito. E não quero mais nada. Quero começar uma vida nova e tenho preguiça de juntar e levar. Os móveis parecem que agora são daqui e não mais meus.  Acho que tenho mais vontade de jogar fora do que colocar em caixas e levar pra Canelinha comigo. 

Nessas mudanças de casa em casa. Deixei muito do que é meu dentro de um trailer. Quando fui lá a última vez. Deu saudade. Olhei meus livros encaixotados. Olhei meus enfeites de parede e até algumas panelas. Senti saudade. Senti saudade do tempo em Canelinha e da minha casinha verde. Essa eu não consigo deixar morrer. Não quero que morra. Toda vez que vou a Canelinha passo na frente. Sinto falta. Dói. E agora ao lembrar eu choro. Saudade de verdade. Talvez se eu pudesse matar a casinha verde, não doeria.

Minha mãe e irmã costumam dizer que eu as abandono. Que só vou. Que vou mudando. Seguindo, sem olhar pra trás. E isto costuma me doer quando dizem. Porque parece que não me importo com elas. Parece que eu não as amo. Minha mãe guarda tanta coisa, minha irmã guarda as minhas memórias em objetos. E eu as amo. Mas sempre preciso partir e sempre preciso morrer. É como sei viver. O fato é que pela primeira vez senti vontade de pegar alguns daqueles objetos de volta. Talvez mostrar que me importo, nem que seja guardando um anjinho de porcelana. Talvez resgatar um pouco de mim.

Assumir minha sexualidade e ir com Simone na casa da minha irmã, fez-me retornar as suzi´s que deixei no passado. Porque sim, muitas vezes precisei morrer. Pra não assumir quem de fato era. E agora eu quero viver. Porque essa Suzi mulher lésbica mãe artista produtora intérprete de libras apaixonada por Canelinha e por mudança é tudo o que eu tenho.

Começamos

     

E este é o registro da primeira reunião sobre o espetáculo "Rabo de Tatu". 
Começamos a pensar nossos encontros, a pesquisa, a abrir nossos corações para este trabalho.



A partir de agora, novas perguntas, novas pesquisas com as mulheres da minha família. Novos questionamentos e novas formas de observar os objetos.

Projeto Aprovado Edital Elisabete Anderle

 

O projeto de pesquisa e montagem do espetáculo "Rabo de Tatu" foi aprovado no Prêmio Elisabete Anderle de Estimulo à Cultura 2020. 

Nesta montagem, conto com a direção de Sandra Vargas do Grupo Sobrevento e de Jô Fornari da Cia. Andante como assistente de direção.

Além disso, minha querida Manu - Emanuele Weber Mattiello vai nos estar conosco enquanto consultoria artística e criação de artigo científico sobre a temática da violência contra a mulher.



Rabo de Tatu em Tradu-Circulação : E-book.

Para acessar click em: https://drive.google.com/drive/folders/1ZknoQj8wV7JG0gR6DFu1i1zbI4v-nprM?usp=sharing