As lembranças que temos do passado muitas vezes são misturadas.
Uma história contada há 30 anos tem, depois do crivo do tempo, outro sabor.
Olhar para o meu passado e lembrar de muitas das minhas vivências
sempre me foi um tanto distorcido. Costumo ter uma mente bem criativa e até
mesmo um tanto dramática. Tenho a tendência a intensificar as histórias e, vez
ou outra, até mesmo recria-las, explorando situações com mais romantismo do que
de fato aconteceram.
Mas o fato é que eu sou uma mulher de 36 anos, hoje atriz, tenho
uma trajetória de vida familiar repleta de violências, e cujo peso ainda me é significativo.
Poso dizer que muito do que vivi são além
de dramas sutis.
Até o mês de setembro de 2021, minhas histórias eram apenas histórias.
Eu as vivenciei, claro, na pele, no sentir, do dia a dia, porém em algum
momento de minha vida, eu deixei todo meu arsenal de memórias traumáticas
estacionados em alguma gaveta do meu sentir.
Talvez para esquecer, talvez para conseguir viver.
Quando me encontrei com minha mãe no mês de setembro e
juntas reviramos nossas memórias desse passado tão custoso e dolorido, eu tinha
constantemente a impressão de que estávamos nos jogando ao abismo. Pensava: estou
fazendo a coisa certa? Não deveria tudo isto permanecer guardado?
Tudo o que vivenciamos, pareceu-me por muito tempo, uma memória
bem inventada, desta atriz criativa que voz fala, mas ao conversar com minha
mãe e ouvir, pela primeira vez, sua versão de nossa história juntas, entendi
que tudo o que ela me dizia eu de fato tinha vivenciado. Não eram dramas ou
traumas inventados, era sim, a verdade nua e crua sendo expurgada pela boca de
minha mãe.
São verdades que pouco falamos. Verdades que não deviam ser
pronunciadas em voz alta. Penso que além de mim, minha mãe, em alguma medida,
guardou toda essa dor em suas próprias gavetas do sentir.
Lembro de ser muito pequena quando vi, pela primeira vez,
meu pai batendo em minha mãe. Ele subiu em cima dela, sufocando-a, apertando
seu pescoço até as veias saltarem. Eu não sabia o que fazer e nem como. Eu
gritava porque minha mãe gritava.
Mesmo embriagado, alguns feixes de luz sempre recaíram sob
meu pai. Assim, as fagulhas de consciência o tomavam por conta, e ele parava.
Talvez fossem nossos gritos. O meu, de minha mãe e de minha irmã mais nova.
Talvez os céus dizendo que minha mãe precisava viver.
Cenas como essa eram corriqueiras. O pior dia da semana era sábado
de manhã. Pois nas sextas-feiras era dia de gandaia e meu pai saia a seu bel
prazer copiosamente toda sexta-feira.
Saia de casa balançando o pênis, faceiro, indiferente as três
mulheres que ele deixava em casa.
As madrugadas de sexta eram longas. Deitávamos na cama, eu,
minha mãe e minha irmã. E juntinhas chorávamos. Eu e minha irmã chorávamos porque
minha mãe chorava. Confesso que sinto saudade de nos três assim, juntinhas.
Parecia que nos protegíamos. O mundo era so nos três.
Quando meu pai chegava la pelas tantas da madrugada. Minha
mãe e ele discutiam muito. As vezes eu estava acordada e ouvia. Meu pai já embriagado,
batia e batia nela. Minha mãe se calava depois de toda a violência. Meu pai
dormia depois roncando alto. Minha mãe chorava.
E no sábado de manhã meu ele acordava o melhor pai do mundo.
Arrependido, queria se desfazer dos maus atos da noite anterior. Nos comprava
presentes, as vezes trazia aqueles doces de bar, bala, chocolate. E tentava nos
comprar. Mas não comprava.
Foram 15 anos de muitas violências. Físicas e psicológicas.
A violência acontecia por qualquer coisa. Por discordarem em
opiniões. Por minha mãe queimar o feijão, por que o gosto da carne não estava
bom. Porque a roupa não estava bem passada. Porque a casa estava suja. Ou simplesmente por uma cara estranha.
Foram muitas marcas. Muitas cicatrizes.
Minha mãe tem hoje uma perna mais curta que a outra. Uma clavícula
deslocada. Marcas de cortes pelo corpo. Mas já teve olhos inchados e roxos, sua
boca sangrando, dias sem poder comer, noites sem poder dormir. E medo, muito
medo.
Como atriz olho pra tudo isso e penso: quanta potência ficcional
em toda narrativa. Mas a história que agora narro não é de uma personagem
distante. Mas a história de mim mesma.
A história de uma menina que aos 15 tentou suicídio por não
suportar mais.
Aos 15 tomei todos os remédios do frasco de calmantes de
minha mãe porque queria de uma vez por todas calar toda a violência, a dor, a
morte, o medo, eu queria simplesmente não existir mais.
Quando meus pais me encontraram eu estava quase inconsciente.
Meu pai me jogou no carro, não queria que saíssem notícias na rádio do meu fatídico
ato. Minha mãe implorava pra ir junto e posso ouvir claramente ainda hoje os
seus gritos dizendo: não faz isso filha, não faz isso.
Meu pai não deixou que ela fosse. Deu um soco em seu rosto e
a empurrou pra longe. Naquele alvoroço estavam vizinhos, curiosos, pessoas que
queriam saber de onde vinham os gritos de minha mãe e o desespero que se
anunciava.
Nenhum vizinho ajudou, denunciou ou se meteu. Minha mãe,
tendo apanhado, chorou implorando ao meu tio, também vizinho, que a levasse ao
hospital para ver como eu estava.
Eu acho que morri nesse dia de verdade.
E acho que nasci de novo quando resolvi montar esse espetáculo
de teatro.
Todas essas memórias me atravessam pessoalmente e por vezes,
sinto que não vou conseguir continuar a montagem. Mas aprovar um projeto de
edital te coloca num lugar de responsabilidade que você tem pouco espaço pra
fugir. E que bom, porque continuo.
Em algum momento achei que não conseguiria deslocar a Suzi
artista, da Suzi pessoa. E elas de fato caminham juntas. Porque ao narrar cada
uma dessas histórias eu vivo e morro muitas vezes.
E renasço com mais força. E morro com menos dor. E ao
relembrar, o peso também se modifica. E
nessa cura entre as várias Suzi’s me encontro motivada, instigada e preparando-me
para trocar, abrir as portas do meu corpo de atriz para outras pessoas.
Abro meus poros pra sentir a dor e sinto. E abro-me pra cena
pra ser inteira. As minhas memórias agora são do mundo.