sexta-feira, 30 de maio de 2025

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Rabo de Tatu em Tradu-Circulação: Desafios e Aprendizagens sobre o Teatro de Objetos e a Acessibilidade

Entre Objetos e Sinais: Experiências Bilíngues no Teatro de Objetos e Animação em Libras e Português RESUMO O presente artigo aborda a experiência da criação e apresentação de um espetáculo de teatro de objetos realizado de maneira bilíngue em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Língua Portuguesa. A pesquisa parte das premissas do teatro de animação e do teatro de objetos como linguagens cênicas autônomas e poéticas, buscando refletir sobre os modos como a Libras pode integrar a cena não apenas como recurso de acessibilidade, mas como linguagem estética e narrativa. A partir de um relato de experiência e análise do processo criativo, discutem-se os desafios e as descobertas na construção de uma cena em que objetos e sinais compartilham o protagonismo, promovendo um espaço sensorial e inclusivo. O trabalho propõe uma reflexão sobre o teatro bilíngue como possibilidade artística e política no contexto contemporâneo. Palavras-chave: Teatro de Objetos; Teatro de Animação; Libras; Teatro Bilíngue; Acessibilidade Cultural. 1. INTRODUÇÃO O teatro contemporâneo tem expandido suas linguagens e suportes, abrindo espaço para formas cênicas que dialogam com o visual, o tátil e o sensorial. Entre essas linguagens, o teatro de objetos e o teatro de animação ganham destaque por deslocarem o foco da interpretação humana tradicional e ampliarem o campo da expressividade. Em paralelo, observa-se um movimento crescente de inclusão da Libras na cena teatral brasileira, não apenas como tradução acessível, mas como linguagem estética autônoma, integrando-se aos elementos narrativos e visuais do espetáculo. Neste artigo, propomos refletir sobre a experiência de construção e apresentação de um espetáculo bilíngue em Libras e Português, realizado por meio da linguagem do teatro de objetos. A partir desta vivência prática, investigamos como essas linguagens dialogam, se inter-relacionam e constroem novas formas de comunicação cênica. Pretende-se contribuir para o campo da pesquisa em teatro e acessibilidade, entendendo a cena bilíngue como espaço criativo e político, onde diferentes modos de expressão e percepção se encontram. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Teatro de Objetos e Teatro de Animação O teatro de objetos é uma vertente do teatro de animação que busca dar protagonismo a objetos cotidianos, retirando-os de seu contexto funcional e atribuindo-lhes vida cênica. Autores como Philippe Genty, Ilka Schönbein e companhias como o Grupo Sobrevento (Brasil) têm contribuído para o desenvolvimento dessa linguagem, que se caracteriza pela criação de metáforas visuais e pela ressignificação do mundo material. O teatro de animação, por sua vez, é um campo que engloba não apenas o teatro de bonecos, mas também o de formas e objetos, ampliando o conceito de "animação" para além do antropomorfismo. Animação, aqui, refere-se ao ato de dar alma, movimento e significado ao inanimado, criando novas possibilidades narrativas e sensoriais. 2.2 Libras na Cena Teatral A Libras tem ganhado espaço no teatro brasileiro como uma linguagem de cena e não apenas como instrumento de tradução. Artistas e grupos como o Moitará, Efraim Canuto, Nathalia Rigo, Gracy Kelly e Paulo Praxedes vêm desenvolvendo pesquisas sobre a expressividade da Libras no contexto teatral, explorando seu potencial visual, rítmico e espacial. Além da Libras como tradução simultânea ou legendagem, surgem na cena experimentações com Visual Vernacular, poesia em Libras e partituras corporais que integram os sinais à dramaturgia e à estética do espetáculo. Assim, a Libras ultrapassa o caráter funcional e se torna linguagem poética e dramatúrgica, propondo novas formas de comunicação e percepção sensorial. 3. METODOLOGIA A pesquisa desenvolvida é de caráter qualitativo, utilizando o relato de experiência como método principal. O espetáculo analisado foi construído a partir de práticas colaborativas entre artistas surdos e ouvintes, com ensaios, improvisações e reflexões sobre a presença do objeto e da Libras na cena. Os dados foram coletados por meio da montagem e seu processo criativo, além das apresentações, relatos da equipe e do público, permitindo uma análise reflexiva sobre as escolhas estéticas e comunicacionais da obra. 4. A EXPERIÊNCIA PRÁTICA: O ESPETÁCULO 4.1 Concepção e Processo Criativo O espetáculo nasceu da vontade de criar uma narrativa que pudesse ser compreendida tanto por pessoas surdas quanto ouvintes, sem que nenhuma delas estivesse em posição de desvantagem na compreensão da história. O teatro de objetos, por sua natureza visual e metafórica, surgiu como linguagem propícia para mediar os diferentes códigos linguísticos presentes na cena. Durante o processo, a construção dramatúrgica partiu da manipulação de objetos cotidianos, que ganharam vida e significado através da manipulação dos atores. Em paralelo, a Libras foi integrada desde o início, não como tradução, mas como parte da partitura corporal e da comunicação dos personagens. 4.2 A Cena Bilíngue No espetáculo, a cena se desenvolveu alternando e sobrepondo Libras e Português oral. Em alguns momentos, os atores utilizavam as duas línguas simultaneamente; em outros, havia pausas poéticas em que apenas a Libras ou apenas o Português construíam a narrativa. O uso do Visual Vernacular potencializou momentos de expressão visual, enquanto a manipulação dos objetos criava imagens poéticas acessíveis a todos os públicos. Além da comunicação verbal e gestual, o próprio objeto tornou-se um elemento "tradutor", capaz de atravessar as barreiras linguísticas e criar uma narrativa sensorial acessível a todos. 4.3 Desafios e Descobertas Entre os principais desafios, destacam-se a sincronização entre os atores surdos e ouvintes, a criação de cenas que não dependessem exclusivamente da linguagem oral e a construção de uma dramaturgia visual que respeitasse e valorizasse a Libras como linguagem estética. Como descobertas, ressalta-se a riqueza do diálogo entre teatro de objetos e Libras, ampliando as possibilidades expressivas da cena e promovendo um espaço cênico inclusivo, sensorial e poético. 5. ANÁLISE E DISCUSSÃO O teatro bilíngue de objetos revelou-se um campo fértil para a experimentação artística e comunicacional. O objeto, enquanto mediador cênico, funcionou como ponte entre línguas e culturas, tornando-se um elemento acessível e universal. O espetáculo não buscou traduzir palavra por palavra, mas criar uma experiência compartilhada, onde diferentes formas de linguagem (verbal, visual, tátil, gestual) se complementaram, oferecendo múltiplas camadas de leitura ao público. Essa prática aponta para um teatro que não coloca a acessibilidade como um recurso externo, mas como um componente intrínseco à criação, propondo novas estéticas e modos de fazer. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência relatada demonstra que é possível construir um teatro bilíngue, poético e acessível, em que a Libras e o teatro de objetos se entrelaçam em uma dramaturgia visual e sensível. Mais do que tornar o teatro acessível a pessoas surdas, trata-se de ampliar os modos de expressão e percepção na cena contemporânea. O teatro de objetos, ao propor outras formas de presença e animação, encontra na Libras uma parceira potente para construir narrativas que rompem com o verbo como única forma de comunicação. Juntas, essas linguagens abrem caminhos para novas investigações estéticas e políticas no teatro contemporâneo.

Rabo de Tatu em Tradu-Circulação : E-book.

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