A história que eu preciso compartilhar...
Eu gosto de pensar que sou pequena.
Pequena porque me remete ao tamanho mesmo e quando se está acima do peso, sentir-se pequena é muitas vezes sentir-se menorzinha. Um tanto mais cabível dentro de si mesmo.
Mas não é só isso. Eu gosto de lembrar da minha eu pequena porque parece que ali eu carregava tanta inocência, numa vida com menos máculas do que outrora vivo. Sou. Represento.
Mas há um sentir-se pequena que me causa muita angústia. Que é quando me sinto pequena, frágil, menosprezada antes aos demais, aí sim, ser pequena dói.
Consigo pontuar quando me senti pequena na vida. Quando senti que achatavam-me até o chão propositalmente ou não para eu vislumbrar de um jeito bem raso mesmo a vida.
Lá de baixo, pisoteada muitas vezes, sentia-me pequena.
Então agora quero compartilhar algumas das vezes em que fui pequena. Sem meu desejo de assim o ser.
Eu era pequena, tipo tinha 10 ou 11 anos. Lembro de estar vendo TV na cama da minha mãe com meu primo que não era tão pequeno, tipo 16 anos, do meu lado.
A gente devia estar vendo desenho, coisa de gente pequena. Pra mim, no caso. E ele me aporrinhando. A cama era da minha mãe. Minha casa. Mas nem sei porque ele estava ali. Enfim, eu não entendi direito quando ele tirou o pênis pra fora e eu vi aquele negócio duro balançando ao sair da cueca. Ele disse: pega.
Eu não sabia porque ele estava fazendo aquilo.
Eu só tinha visto o pintinho do meu primo menor, uma coisinha de fato pequena.
Mas meu primo era diferente.
Eu me assustei. Falei pra ele parar com brincadeira e tentei focar no desenho.
Senti-me pequena. Mas sem saber que me sentia pequena.
Era estranho. Era inusitado. Era grave.
Meu primo subiu em cima de mim. Eu devia estar de vestido ou saia porque não lembro de ele tirar minha roupa. Ele ria. Parecia uma brincadeira pra ele e eu estava ainda tentando entender que tipo de brincadeira era aquela.
Colocou o pênis na minha pequena vagina. E me segurava não deixando eu me mover.
Ele era daqueles meninos atentados que vez ou outra me segurava com força em outras brincadeiras idiotas. Mas aquilo era estranho, doía e eu dizia: para com essa brincadeira.
Comecei a gritar pra ele parar e ele parou.
Ele saiu do quarto correndo. E eu fiquei na cama achando que tinha feito uma brincadeira que minha mãe não aprovaria. Não porque era sexual. Mas porque tinha doído mais que um joelho ralado.
Saí do quarto da minha mãe e fui pro meu. Fiquei com a respiração ofegante por um tempo. Já meu primo foi pra casa. Eu não lembro de nada. Exatamente nada sobre ele daquela época.
Da época que eu era pequena e me senti pequena.
Hoje não sou mais tão pequena assim, com 36, mulher feita, ainda me sinto pequena ao lembrar daquele dia.
Com 12, descobri como se faziam os bebês.
Uma amiga, vizinha, tinha me pedido se eu sabia como se fazia.
Eu disse que sabia. Mas não sabia.
Então ela contou, com detalhes e numa proposta bem nojenta pra minha cabeça pequena, sobre o fatídico ato.
Eu fiquei espantada. Lembro que disfarcei e fui pra casa.
De novo no meu quarto, lembro que chorei.
Chorei sem entender direito o porquê chorava.
Talvez porque eu achasse que estava grávida. Talvez porque tinha entendido que meu primo tinha tentado brincar de fazer bebê. E mais do que isso, tinha feito sexo comigo.
Eu fiquei um bom tempo achando que estava grávida. Chorava à noite. Nem era por conta de ter um bebê. Mas porque minha experiência com pênis era simplesmente terrível. Por que alguém se machuca tanto pra ter um bebê?
Era muito pra digerir.
Não lembro como descobri que não estava grávida e quanto tempo durou esses medos e vivências.
Mas sei que hoje olho pra trás e eu acho bonito minhas coisas de menina pequena. Minha inocência pequena. Mas a história com meu primo nunca foi pequena dentro de mim.
Ocupou um espaço tão grande que só consegui falar dela quando cresci. Já tinha 28 quando entendi que precisava falar aquela história que dentro de mim era tão grande a me sufocar.
Sinto-me mais leve e mais pequena ao narrar. Abraço a suzi grande que guarda dentro de si um espaço enorme pra ser pequena.
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