quarta-feira, 21 de julho de 2021

Ser pequena - a história que nunca quis contar mas que precisava, pra ser grande

 A história que eu preciso compartilhar... 


Eu gosto de pensar que sou pequena.

Pequena porque me remete ao tamanho mesmo e quando se está acima do peso, sentir-se pequena é muitas vezes sentir-se menorzinha. Um tanto mais cabível dentro de si mesmo.

Mas não é só isso. Eu gosto de lembrar da minha eu pequena porque parece que ali eu carregava tanta inocência, numa vida com menos máculas do que outrora vivo. Sou. Represento.

Mas há um sentir-se pequena que me causa muita angústia. Que é quando me sinto pequena, frágil, menosprezada antes aos demais, aí sim, ser pequena dói.

Consigo pontuar quando me senti pequena na vida. Quando senti que achatavam-me até o chão propositalmente ou não para eu vislumbrar de um jeito bem raso mesmo a vida.

Lá de baixo, pisoteada muitas vezes, sentia-me pequena.

Então agora quero compartilhar algumas das vezes em que fui pequena. Sem meu desejo de assim o ser. 

Eu era pequena, tipo tinha 10 ou 11 anos. Lembro de estar vendo TV na cama da minha mãe com meu primo que não era tão pequeno, tipo 16 anos, do meu lado. 

A gente devia estar vendo desenho, coisa de gente pequena. Pra mim, no caso. E ele me aporrinhando. A cama era da minha mãe. Minha casa. Mas nem sei porque ele estava ali. Enfim, eu não entendi direito quando ele tirou o pênis pra fora e eu vi aquele negócio duro balançando ao sair da cueca. Ele disse: pega.

Eu não sabia porque ele estava fazendo aquilo. 

Eu só tinha visto o pintinho do meu primo menor, uma coisinha de fato pequena.

Mas meu primo era diferente.

Eu me assustei. Falei pra ele parar com brincadeira e tentei focar no desenho.

Senti-me pequena. Mas sem saber que me sentia pequena.

Era estranho. Era inusitado. Era grave.

Meu primo subiu em cima de mim. Eu devia estar de vestido ou saia porque não lembro de ele tirar minha roupa. Ele ria. Parecia uma brincadeira pra ele e eu estava ainda tentando entender que tipo de brincadeira era aquela. 

Colocou o pênis na minha pequena vagina. E me segurava não deixando eu me mover.

Ele era daqueles meninos atentados que vez ou outra me segurava com força em outras brincadeiras idiotas. Mas aquilo era estranho, doía e eu dizia: para com essa brincadeira.

Comecei a gritar pra ele parar e ele parou. 

Ele saiu do quarto correndo. E eu fiquei na cama achando que tinha feito uma brincadeira que minha mãe não aprovaria. Não porque era sexual. Mas porque tinha doído mais que um joelho ralado. 

Saí do quarto da minha mãe e fui pro meu. Fiquei com a respiração ofegante por um tempo. Já meu primo foi pra casa. Eu não lembro de nada. Exatamente nada sobre ele daquela época.

Da época que eu era pequena e me senti pequena.

Hoje não sou mais tão pequena assim, com 36, mulher feita, ainda me sinto pequena ao lembrar daquele dia.

Com 12, descobri como se faziam os bebês. 

Uma amiga, vizinha, tinha me pedido se eu sabia como se fazia.

Eu disse que sabia. Mas não sabia.

Então ela contou, com detalhes e numa proposta bem nojenta pra minha cabeça pequena, sobre o fatídico ato. 

Eu fiquei espantada. Lembro que disfarcei e fui pra casa.

De novo no meu quarto, lembro que chorei. 

Chorei sem entender direito o porquê chorava. 

Talvez porque eu achasse que estava grávida. Talvez porque tinha entendido que meu primo tinha tentado brincar de fazer bebê. E mais do que isso, tinha feito sexo comigo.

Eu fiquei um bom tempo achando que estava grávida. Chorava à noite. Nem era por conta de ter um bebê. Mas porque minha experiência com pênis era simplesmente terrível. Por que alguém se machuca tanto pra ter um bebê?

Era muito pra digerir.  

Não lembro como descobri que não estava grávida e quanto tempo durou esses medos e vivências.

Mas sei que hoje olho pra trás e eu acho bonito minhas coisas de menina pequena. Minha inocência pequena. Mas a história com meu primo nunca foi pequena dentro de mim.

Ocupou um espaço tão grande que só consegui falar dela quando cresci. Já tinha 28 quando entendi que precisava falar aquela história que dentro de mim era tão grande a me sufocar.

Sinto-me mais leve e mais pequena ao narrar. Abraço a suzi grande que guarda dentro de si um espaço enorme pra ser pequena.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Diário da Montagem - Relato poético da Jô

 Texto 1- ensaio 1 – cozinha do Moinho de inventos 

Era uma tarde fria de inverno. 

O sol entrava pela janela da cozinha e desenhava na toalha da mesa poemas de luz e sombra.

E assim começamos nosso inverno, recolhidas entre memórias, partilhas, objetos, lembranças, saudades e nostalgias. 

Ali envolta ao calor do sol e do passado -  que as vezes é o que aquece, outras é aquilo que ainda queima, que arde e que também nos move -  demos inicio a nossa caminhada na feitura do espetáculo “Rabo de tatu” que, começa com a avó da Suzi, mas que tbem é sua mãe e é a própria Suzi. 

E ali na mesa da cozinha, cenário de tantas vidas e acontecimentos cotidianos marcados na pele de muitas gerações, serão agora recolhidas e acolhidas.

Tantas mulheres que fazem parte de nós! Que se juntam , modelam, fermentam aquilo que somos hoje e talvez o que seremos amanhã. 

Diante de suas histórias, dos afetos, do passado embrulhado num vestido de noiva nunca usado; temos o presente e o futuro para, perpetuar ou transformar ou liberar ou apenas  remexer, entender, nos entender, encontrar nosso lugar de pertencimento, nosso lugar no mundo ali fora e  principalmnte, aqui dentro.

Não é só sobre elas, é muito mais sobre nós... aquilo que somos e aquilo que ainda queremos ser ou não.  

Conduzidas pelos objetos, que são o retrato de cada mulher ali sentada conosco ao redor da mesa, e que foram as testemunhas de muitas Lene, mari, maria, Tereza , avós, mães e filhas , demos início a costura feita a mão, de uma machada toalha de mesa, para um almoço em família, que talvez  nunca tenha acontecido antes.

Diário da montagem - Relato 01

Tenho a impressão que todas as histórias do mundo se entrelaçam de alguma forma. Meu pedacinho de ser se conecta a todos os outros pedaços do mundo. Minha migalha de existência, porém, é repleta de uma infinidade de histórias.

Na tarde de quinta-feira, começamos por fim, o processo de montagem do espetáculo teatral Rabo de Tatu. Um projeto que cutuca minhas memórias e traz à tona histórias as quais guardei todo afeto e por vezes, escondi à sete chaves de mim mesma. Sentia medo, repulsa, ansiedade e angústia em expor parte da minha trajetória, como que se narrando, parte dela pudesse de alguma forma tomar vida e voltar a acontecer.

Tenho memórias lindas e outras, nem tanto. Essas pois, quando ditas em voz alta, compartilhadas, um tanto me amedrontam, um tanto me resgatam de uma suzi pequena que já fui e que jamais poderia deixar de ser.

O encontro aconteceu na mesa da cozinha. Sentadas muito próximas, eu, Suzi Daiane, integrante atriz mãe mulher deste projeto de teatro de objetos, estava de frente com Jô Fornari, também atriz das pequenezas e neste momento, auxiliar de direção de Sandra Vargas. Ela paciente me ouvia, sentia e respirava comigo minhas históiras. Ora tentando saber mais, ora querendo dividir as suas.

Na cozinha, parece que estávamos a separar os ingredientes de nossas memórias. Olhamos com atenção para minhas origens, selecionando ali os objetos especiais desse alimento que foi me abastecendo em toda vida.

Senti-me preenchida, isso porque ao olhar para minha avó, matriarca , materna, consigo notar nela a mulher que sempre quis ser. Queria tirar dali os ingredientes necessários para coser uma vida melhor.

Tenho a impressão que minha avó materna tinha o poder de mover o mundo. Ela, onze filhos, ao cuidar da casa, das roupas, da lida da vida doméstica, era a mulher exemplo. Ainda que forte, violenta em suas ações de educar, ela se impunha, ela tinha coragens que parece que sempre me faltaram.

Minha avó fugiu de casa pra casar, como diziam os antigos. Ela tinha pressa, como eu tantas vezes tenho. E na pressa e no amor, vieram 1, 2, 3 , 11 filhos. 

Narrei pra Jô as histórias que conhecia dessa minha avó tão bendita. Sinto orgulho dessa mulher que nunca conheci, mas que sempre me passou uma imagem de fortaleza. Ela dava as ordens, ela era como “o macho” da casa. 

Em todas as narrativas de minha avó materna, só consigo perceber que ela queria existir, clamava por ter sua própria vida, ainda que dentro de casa, enclausurada na lida doméstica, com seus onze rebentos.

Eu sinto que de alguma forma somos conectadas por uma energia que não sei descrever. Desde pequena no acerto ou no erro. Fico a imaginar minha avó abençoando lá do céu minhas escolhas. Lembro de fechar os olhos muitas vezes e dizer no meu silêncio: obrigada avó. Como se fosse ela responsável por algo que deu certo. Lembro também da vergonha que senti quando me assumi lésbica e pensava: será que ela me aceitaria? Logo depois entender que se ela está a me observar de fato, com certeza sabe da verdade do meu coração de sapatão.

Ouvi Jô, também falando de sua trajetória, e parece que em alguma medida olhar pra trás é meio parecido pra todo mundo. Minha família lageana parece um tanto com a família de São Domingos de Jô. Nesse aproximar sentia-me acolhida.

E sinto que minhas histórias são um pouco de Jô e as histórias dela também são um pouco minhas. Assim como as histórias de minha avó são eu. Assim como eu sou um pouco da minha avó. Somos todas mulheres, enclausuradas muitas vezes pelo patriarcado, que que cozinha nossa libertação. 

Rabo de Tatu em Tradu-Circulação : E-book.

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