De onde surgiu o desejo, a pesquisa e o fazer para a cena
Este é um projeto pessoal artístico no qual desenvolvo pesquisas com as mulheres da minha família para tratar fundamentalmente das histórias que envolvem minha avó materna, bem como histórias de amor e violência vivenciadas pelas mulheres da minha família. Minha irmã, minha mãe, minhas tias e primas.
A proposta é resgatar objetos de memória da minha família, partindo de um objeto que ficou de herança: Um Rabo de Tatu, utilizado por minha avó materna para "doutrinar" seus filhos.
Minha proposta é iniciar os relatos, pesquisas, entrevistas com base no objeto Rabo de Tatu e então resgatar outros objetos, memórias que vão falar de violência. Em supremacia a violência contra a mulher.
Esta pesquisa sempre esteve comigo. Seja na lida de ser mulher, seja nos natais ou encontros com a família, essas memórias curiosas e potentes que vejo no meu ciclo familiar, sempre me instigaram à montagem de um espetáculo teatral.
Mas foi em 2018 que comecei de fato a entender como essas memórias poderiam se tornar linguagem cênica. Escolho então o teatro de objetos como forma poética, metafórica para estruturação de um espetáculo teatral.
O Teatro de Objetos
O teatro de objetos é uma vertente muita moderna do Teatro de Animação. Esta técnica trabalha com objetos prontos no lugar de bonecos, deslocando-os de sua função original, sem transformar a natureza deles, a fim de explorar uma série de novos significados que possam nascer desses usos. Para tanto se utiliza da metáfora, metonímia, e simbolismos os mais variados para expressar uma ideia. Ele também se caracteriza por uma singularidade bem contemporânea: a vocação para a dramaturgia confessional e autobiográfica.
Assim, foi a partir desta singularidade e da potência poética e metafórica do objeto, que encontrei uma forma de transpor para o teatro, diversas histórias que venho coletando através de depoimentos e entrevistas do meu ciclo familiar. Estas histórias tratam da infância de minhas tias, da minha mãe, do convívio com minha avó materna, dos nossos períodos de menina e das violências que vivemos como mulheres no decorrer da vida. Esta será nossa luta poética.
Objetos trazem à tona memórias, trazem cargas afetivas e sentidos. Eles adquirem outros status, se convertem em autobiografia e testemunho de lugares vividos e de enunciação da memória, isto é, os objetos acabam por ser representações da história pessoal.
Resgato, porquanto, através desta montagem objetos familiares, objetos de memória, objetos representativos da minha história e que foram significativos na construção da minha identidade.
O Rabo de Tatu e as Demais Violência
O ponto de partida para a montagem teatral será um objeto preservado pela minha família, um “rabo de tatu”. Este objeto foi mantido em nossa história, quase como um troféu, exposto a quem quisesse ver, ou saber sobre ele. O rabo de tatu foi o objeto que minha avó materna, dona Iraci Machado da Silva, utilizava para bater em seus onze filhos. Todos foram “doutrinados” e “ensinados” a chicotadas.
Um rabo de tatu é um objeto muito duro em sua consistência. Utilizado muitas vezes para "amansar" cavalos, dando-lhe chicotadas no lombo. O fato é que eram outros tempos e bater nos filhos era uma atitude “culturalmente aceita” nas relações intrafamiliares, então minha avó optava por “ensinar” seus filhos batendo neles. A punição naquele contexto familiar era justificada como uma prática educativa. Assim, logo que alguma das crianças tivesse um comportamento fora do considerado adequado, o rabo de tatu era acessado. Eram muitas crianças pela casa, onze no total, mas o Rabo de Tatu sempre esteve lá, exposto. Aquele objeto que torturava, mas que também era utilizado pela minha avó como uma forma de ensinar. Para ela, era uma “dor necessária”. O amor pela dor.
Minha avó hoje é falecida, mas o rabo de tatu permanece. Ao questionar o porquê minha família guardou este objeto, sendo que todos apanhavam e ficavam machucados por conta das batidas, a resposta é sempre a mesma: “a gente guardou para lembrar da nossa mãe”. O interessante sobre este objeto é que ele preserva em algum grau, um sentimento de saudosismo, de afeto. Meus tios e tias lembram carinhosamente de minha avó materna.
Aquele mesmo rabo de tatu ainda existe. Aquele mesmo rabo de tatu que bateu nas onze nádegas. Desde quando eu soube a história do Rabo de Tatu, interessei-me por utilizá-lo em alguma montagem teatral. Ele foi doado por minha tia mais velha, que entendendo minha profissão de atriz, contadora de histórias, acabou entregando este objeto para que eu pudesse transformar o rabo de tatu em um espetáculo.
Na contramão de toda violência vivenciada em casa, minha avó era tida como a mulher decidida e empoderada da família. De personalidade forte, a qual todos mantinham muito zelo e respeito. Era admirada por todos. Nos relatos que já consegui coletar, minha mãe e minhas tias contam que quando iam apresentar um namorado em casa, era para minha avó que tinham que fazer o pedido, não para meu avô. A matriarca da família, minha avó, foi aquela mulher que além de dar luz, cuidou dos onze filhos, trabalhou e findou sua vida com uma lembrança de mulher forte, uma mulher além do seu tempo. As violências vivenciadas por todos está intimamente conectada por laços também de presença e afeto.
O objeto Rabo de Tatu, acabou impulsionando uma pesquisa que vai além dos limites do convívio familiar, acabou tornando-se mote para diversas pesquisas. O tema da violência ganhou outras proporções neste processo de registro. Isto porque, a questão da violência perpassa o meu histórico de vida em vários momentos. Não somente na época de minha avó, mas hoje como mulher e mãe, afirmo que já sofri diversas violências físicas e psicológicas, de forma multidirecional, incluindo abusos sexuais e violências domésticas.
Segundo matéria divulgada no site da Folha de São Paulo em setembro de 2019, com dados do Ministério da Saúde, a cada 4 minutos uma mulher é agredida por um homem no Brasil. Em 2018, por exemplo, foram registrados 145 mil casos de violência física, sexual, psicológica e outros tipos de violência. Esses dados não incluem vítimas fatais. A violência contra a mulher é um assunto muitas vezes velado na sociedade, porém um assunto emergente no estado de Santa Catarina e no País.
Segundo matéria publicada pelo Jornal Correio do Povo de Jaraguá do Sul SC, em 30 de julho de 2020, entre 19 de março e 31 de maio deste ano, Santa Catarina registrou 7 feminicídios confirmados. O Estado também 2.376 processos e inquéritos envolvendo violência doméstica e familiar e 2.134 medidas protetivas deferidas. Enquanto mulher, faço parte dessas estatísticas, as mulheres da minha família também fazem parte dessas estatísticas. Assim, o espetáculo parte de uma história particular, mas que universaliza muitas histórias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário