sexta-feira, 30 de maio de 2025

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Rabo de Tatu em Tradu-Circulação: Desafios e Aprendizagens sobre o Teatro de Objetos e a Acessibilidade

Entre Objetos e Sinais: Experiências Bilíngues no Teatro de Objetos e Animação em Libras e Português RESUMO O presente artigo aborda a experiência da criação e apresentação de um espetáculo de teatro de objetos realizado de maneira bilíngue em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e Língua Portuguesa. A pesquisa parte das premissas do teatro de animação e do teatro de objetos como linguagens cênicas autônomas e poéticas, buscando refletir sobre os modos como a Libras pode integrar a cena não apenas como recurso de acessibilidade, mas como linguagem estética e narrativa. A partir de um relato de experiência e análise do processo criativo, discutem-se os desafios e as descobertas na construção de uma cena em que objetos e sinais compartilham o protagonismo, promovendo um espaço sensorial e inclusivo. O trabalho propõe uma reflexão sobre o teatro bilíngue como possibilidade artística e política no contexto contemporâneo. Palavras-chave: Teatro de Objetos; Teatro de Animação; Libras; Teatro Bilíngue; Acessibilidade Cultural. 1. INTRODUÇÃO O teatro contemporâneo tem expandido suas linguagens e suportes, abrindo espaço para formas cênicas que dialogam com o visual, o tátil e o sensorial. Entre essas linguagens, o teatro de objetos e o teatro de animação ganham destaque por deslocarem o foco da interpretação humana tradicional e ampliarem o campo da expressividade. Em paralelo, observa-se um movimento crescente de inclusão da Libras na cena teatral brasileira, não apenas como tradução acessível, mas como linguagem estética autônoma, integrando-se aos elementos narrativos e visuais do espetáculo. Neste artigo, propomos refletir sobre a experiência de construção e apresentação de um espetáculo bilíngue em Libras e Português, realizado por meio da linguagem do teatro de objetos. A partir desta vivência prática, investigamos como essas linguagens dialogam, se inter-relacionam e constroem novas formas de comunicação cênica. Pretende-se contribuir para o campo da pesquisa em teatro e acessibilidade, entendendo a cena bilíngue como espaço criativo e político, onde diferentes modos de expressão e percepção se encontram. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Teatro de Objetos e Teatro de Animação O teatro de objetos é uma vertente do teatro de animação que busca dar protagonismo a objetos cotidianos, retirando-os de seu contexto funcional e atribuindo-lhes vida cênica. Autores como Philippe Genty, Ilka Schönbein e companhias como o Grupo Sobrevento (Brasil) têm contribuído para o desenvolvimento dessa linguagem, que se caracteriza pela criação de metáforas visuais e pela ressignificação do mundo material. O teatro de animação, por sua vez, é um campo que engloba não apenas o teatro de bonecos, mas também o de formas e objetos, ampliando o conceito de "animação" para além do antropomorfismo. Animação, aqui, refere-se ao ato de dar alma, movimento e significado ao inanimado, criando novas possibilidades narrativas e sensoriais. 2.2 Libras na Cena Teatral A Libras tem ganhado espaço no teatro brasileiro como uma linguagem de cena e não apenas como instrumento de tradução. Artistas e grupos como o Moitará, Efraim Canuto, Nathalia Rigo, Gracy Kelly e Paulo Praxedes vêm desenvolvendo pesquisas sobre a expressividade da Libras no contexto teatral, explorando seu potencial visual, rítmico e espacial. Além da Libras como tradução simultânea ou legendagem, surgem na cena experimentações com Visual Vernacular, poesia em Libras e partituras corporais que integram os sinais à dramaturgia e à estética do espetáculo. Assim, a Libras ultrapassa o caráter funcional e se torna linguagem poética e dramatúrgica, propondo novas formas de comunicação e percepção sensorial. 3. METODOLOGIA A pesquisa desenvolvida é de caráter qualitativo, utilizando o relato de experiência como método principal. O espetáculo analisado foi construído a partir de práticas colaborativas entre artistas surdos e ouvintes, com ensaios, improvisações e reflexões sobre a presença do objeto e da Libras na cena. Os dados foram coletados por meio da montagem e seu processo criativo, além das apresentações, relatos da equipe e do público, permitindo uma análise reflexiva sobre as escolhas estéticas e comunicacionais da obra. 4. A EXPERIÊNCIA PRÁTICA: O ESPETÁCULO 4.1 Concepção e Processo Criativo O espetáculo nasceu da vontade de criar uma narrativa que pudesse ser compreendida tanto por pessoas surdas quanto ouvintes, sem que nenhuma delas estivesse em posição de desvantagem na compreensão da história. O teatro de objetos, por sua natureza visual e metafórica, surgiu como linguagem propícia para mediar os diferentes códigos linguísticos presentes na cena. Durante o processo, a construção dramatúrgica partiu da manipulação de objetos cotidianos, que ganharam vida e significado através da manipulação dos atores. Em paralelo, a Libras foi integrada desde o início, não como tradução, mas como parte da partitura corporal e da comunicação dos personagens. 4.2 A Cena Bilíngue No espetáculo, a cena se desenvolveu alternando e sobrepondo Libras e Português oral. Em alguns momentos, os atores utilizavam as duas línguas simultaneamente; em outros, havia pausas poéticas em que apenas a Libras ou apenas o Português construíam a narrativa. O uso do Visual Vernacular potencializou momentos de expressão visual, enquanto a manipulação dos objetos criava imagens poéticas acessíveis a todos os públicos. Além da comunicação verbal e gestual, o próprio objeto tornou-se um elemento "tradutor", capaz de atravessar as barreiras linguísticas e criar uma narrativa sensorial acessível a todos. 4.3 Desafios e Descobertas Entre os principais desafios, destacam-se a sincronização entre os atores surdos e ouvintes, a criação de cenas que não dependessem exclusivamente da linguagem oral e a construção de uma dramaturgia visual que respeitasse e valorizasse a Libras como linguagem estética. Como descobertas, ressalta-se a riqueza do diálogo entre teatro de objetos e Libras, ampliando as possibilidades expressivas da cena e promovendo um espaço cênico inclusivo, sensorial e poético. 5. ANÁLISE E DISCUSSÃO O teatro bilíngue de objetos revelou-se um campo fértil para a experimentação artística e comunicacional. O objeto, enquanto mediador cênico, funcionou como ponte entre línguas e culturas, tornando-se um elemento acessível e universal. O espetáculo não buscou traduzir palavra por palavra, mas criar uma experiência compartilhada, onde diferentes formas de linguagem (verbal, visual, tátil, gestual) se complementaram, oferecendo múltiplas camadas de leitura ao público. Essa prática aponta para um teatro que não coloca a acessibilidade como um recurso externo, mas como um componente intrínseco à criação, propondo novas estéticas e modos de fazer. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência relatada demonstra que é possível construir um teatro bilíngue, poético e acessível, em que a Libras e o teatro de objetos se entrelaçam em uma dramaturgia visual e sensível. Mais do que tornar o teatro acessível a pessoas surdas, trata-se de ampliar os modos de expressão e percepção na cena contemporânea. O teatro de objetos, ao propor outras formas de presença e animação, encontra na Libras uma parceira potente para construir narrativas que rompem com o verbo como única forma de comunicação. Juntas, essas linguagens abrem caminhos para novas investigações estéticas e políticas no teatro contemporâneo.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Rabo de Tatu em Tradu-Circulação: O Projeto

O projeto Rabo de Tatu em tradu-circulação refere-se a remontagem do espetáculo a fim de transformá-lo em um espetáculo bilíngue Português / Libras, tomando como premissa uma proposta de acessibilidade estética através da Libras e da Audiodescrição A premissa da remontagem será a adaptação do espetáculo que hoje acontece em língua portuguesa e passará a ser apresentado também em Libras de forma bilingue. Em se tratando de uma atriz e intérprete de Libras, a proposta é o estudo de como se dará isto na cena, tomando como base o espetáculo Rabo de Tatu. Ressalta-se que por se tratar de um projeto de remontagem, será investido recurso para aprimoramento da cenografia do espetáculo que sofreu impactos pelo tempo e precisa de uma nova construção, de forma que será contratada profissional para execução desta nova constituição cenográfica. Além disso, será investido recurso também para aprimoramento da sonoplastia, tendo em vista que ao fazer o espetáculo bilingue (com acessibilidade em audiodescrição também) será necessário alterações no trejeito musical e sonoridade do espetáculo. Os recursos de acessibilidade serão experimentados como parte integrante e fundamental do espetáculo. Assim, tanto Libras como Audiodescrição serão propostos com perspectiva estética, promovendo através da remontagem, uma acessibilidade estética. A intenção do projeto é tomar a acessibilidade como crucial no processo de remontagem, de forma que seja estudada dentro da constituição narrativa do espetáculo, tanto enquanto objeto estético da obra cênica.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Artigo - Que tal um casamento consigo mesma para recomeçar uma nova história?

O projeto Montagem Teatral Rabo de Tatu contou com a participação de Emanuele Mattiello que esteve acompanhando o projeto, acessorando e também produziu um artigo sobre o espetáculo. Confere o material no link: https://drive.google.com/drive/folders/1uXqAmXs5EQEk4Mk69564_8tUgsbqi4_F?usp=sharing Segue também o arquivo em texto abaixo: Que tal um casamento consigo mesma para recomeçar uma nova história? O convite poético e corajoso através do teatro de objetos denuncia as violências contra as mulheres na peça Rabo de Tatú, solo da atriz Suzi Daiane (Cia Laço de Arte) que acaba de estrear em Santa Catarina A peça Rabo de Tatu (Cia Laço de Arte-SC), criada com a linguagem do teatro de objetos, estreou na cidade catarinense de Canelinha (em junho de 2022), com a atriz Suzi Daiane, direção de Sandra Vargas (Cia Sobrevento-SP) e assistência de direção de Jô Fornari (Cia Andante-SC). O trabalho se destaca pelas imagens poéticas que constrói com delicadeza e firmeza ao trazer à tona duras histórias reais sobre violências contra mulheres. Um trabalho que atravessa cada pessoa do público e convida para refletir e compor outro modelo de sociedade. Aqui, neste ensaio, trago algumas das muitas imagens da peça que me fizeram mergulhar em outro mundo possível, mesmo diante do horror das memórias presentes. Num fio muito delicado a narrativa revela memórias da própria atriz, e resgata sua ancestralidade ao contar um pouco da história de sua mãe e de sua avó. E. assim, revela um pouco dessas mulheres incríveis: seus sonhos, seus feitos, seus cotidianos, suas lutas, entremeadas pelos inúmeros desafios que elas enfrentaram, e enfrentam, sobretudo devido a sérias situações de assédio, estupro, machismo, homofobia, e outras violências. Mesmo com um assunto tão duro, e urgente, a peça consegue ser sutil e forte ao mesmo tempo. Marcada pelo posicionamento corajoso e humilde da atriz Suzi Daiane e pela maestria da equipe em fazer ressurgir esperança através das imagens poéticas e políticas em cena. Uma alegoria de um grito de “basta!” e um caminho poético de transmutação da sociedade que vivemos. Rabo de Tatu é uma das peças que me marcaram profundamente e posso apostar que certamente fará muita história por onde passar. Tanto pelos assuntos urgentes que traz, enquanto denúncia, informação e alerta, necessários numa sociedade tão violenta. Quanto pela delicadeza e perspicácia das escolhas de composição cênica que nos transportam para outro tempo- espaço. Aos poucos, num ritmo próprio, parece que a peça nos faz crianças e nos coloca no colo de mãe e de avó, onde estamos seguras para nos olhar, nos perceber, nos respeitar, e assim brincar, sorrir, chorar, sentir, respirar fundo, e de mãos dadas, seguir juntas. E aqui, neste colo, sinto nas bochechas o calor do leite quente, o gosto das nossas memórias vividas, e me atravesso pelo olhar brilhante de todas essas mulheres que se apresentam nesta trama e me grudam nela, como pessoa do público e como testemunha ativa de uma outra história por vir. Essa é a sensação a cada minuto da peça. A cada respiração, num tempo calmo e cheio de pensamentos, a dramaturgia vai traçando estratagemas que abrem um espaço para que as histórias nos atravessem e nos permitam transformar também em nós aquelas situações. De certa maneira a peça inaugura uma outra etapa da própria vida da atriz Suzi Daiane, e das memórias que ela transmuta ali, e com ela cada uma das pessoas que participa daquele momento (como público). Uma outra casa se constrói como sabiamente disse a atriz Emeli Barossi: “trazendo essa história tu abres esse espaço na gente (...) para que a gente tenha coragem de liberar essa história, transmutar (...) tirando de dentro da tua casa é que [vai fazer] com que algumas mulheres consigam [sair das suas casas]”. Um posicionamento firme, corajoso, generoso da montagem, que reforça o poder da arte em plantar uma sementinha poética e nos permitir a pensar, sonhar e, assim, aos poucos, construir outro mundo. Com mais respeito. A peça foi estruturada de maneira a convocar o público a participar da história que está acontecendo em cena de uma maneira sagaz e sutil. Pois, ao que me parece, o público é colocado como testemunha ativa diante daquelas denúncias, e ali, é convidado a transformar o seu próprio cotidiano - dentro dos limiares que pode a arte desenhar. E o convite parte de um encontro inusitado aparece numa das imagens mais contraditórias e marcantes da peça: a personagem entra em cena com um vestido de noiva rasgado e se depara com um caixão. E ali ela revolve a própria terra entre as memórias de sua mãe, de sua avó, as suas próprias lembranças, e, de certa forma, as histórias de todas nós. A atriz desde o início tinha apenas duas certezas sobre o caminho poético escolhido para a narrativa: que ela estaria vestida de noiva, e que estaria diante de um caixão. Pois, enterros e casamentos são momentos importantes de sua família. E neste encontro paradoxal Suzi mostra também a maturidade de sua atuação e a perspicácia como dramaturga. Em cena, sobre o caixão, ela narra diversos fatos cômicos, e outros violentos - como os assédios, estupros, homofobia e outros preconceitos pelos quais passou. E ali, através de objetos, falas, sonhos, canções, Suzi enterra as próprias memórias, convoca o público para um casamento com si próprio, e cria espaço para a imaginação de um novo mundo. “Eu morri tantas vezes que eu acreditei que precisava morrer”, conta a personagem numa das falas mais arrepiantes que carregam ecos de muitas das nossas próprias histórias. Na peça morremos com Suzi e renascemos juntas. Diante do caixão, vestida com o véu branco de noiva, entre os brilhantes que caem da renda rasgada, calçando sapatos de “machorra”, Suzi com muita coragem permite se acidentar, morrer, e propõe um casamento consigo mesma. Em cima do caixão ela busca leite, canta, chora, ri, se casa, joga arroz, ensaca os noivos, toca acordeom, come bolo de aniversário, bebe cachaça, e assim, enterrando e desmontando padrões e memórias a personagem faz renascer outros possíveis caminhos, formas de amar. Suzi remonta a própria história e abre espaço para o público a fazer o mesmo. O branco quente do leite contrasta com o branco frio do vestido de noiva rasgado da personagem. E o caixão, cinza, no centro do palco, faz ampliar as camadas da narrativa. A noiva chega, rasgada, para um enterro. O enterro da avó, da mãe, de muitas mulheres, o seu próprio enterro. Os brilhantes do vestindo vão caindo e se misturam as memórias que a personagem vai enterrando. Do caixão saem imagens-objetos, ou objetos-imagens, que vão nos fazendo imaginar tanto as memórias que enterramos, quanto as memórias novas que queremos criar na história, daqui para frente. Desde que assisti tenho certeza que uma parte de mim ficou colada na peça, e igualmente um pedaço da cena veio grudado no meu corpo. Essa sensação se deu logo na primeira cena, quando Suzi conta um trecho da história da sua avó e fala sobre a busca do leite, todo dia, que ela fazia a pé, um ir e voltar. Esperança, fome, necessidade, uma mulher mãe, luta. Esta imagem ressurge várias vezes no meu dia a dia. Quem era aquela mulher? Como vivia? Gostaria de a ter conhecido, e ali, em cena, Suzi nos apresenta. A avó foi uma pessoa muito simples, batalhadora, humilde. Todo dia ela caminhava a pé três horas todos os dias, para buscar o leite das crianças. Ia e voltava. Ao fim do dia, ela levava a leiteira vazia novamente para o ônibus. Ia, e voltava para casa enquanto o ônibus viajava até outra cidade buscar o leite. No outro dia de manhã, a avó voltava a pé para buscar a leiteira cheia, a única que a família tia e que garantia o leite de todas 11 crianças. Um ir e voltar. Todo dia. “Um pão por dia” dizia a avó. A imagem, construída com objetos, de maneira singela me fez grudar na peça logo de cara. A partir daquela cena me sinto presa àquele acontecimento. Não tem mais volta. Dali para frente cada minuto é uma descoberta e uma vivência em conjunto entre Suzi, suas memórias, suas ancestrais, os objetos que imaginam e o público, que na montagem, se torna testemunha ativa, portanto parte do acontecimento. É muito impressionante como a peça faz acontecer e se acidentar tantos sonhos e memórias duras, de uma maneira que por vezes a composição cênica consegue ser firme, posicionada, delicada e forte. As cenas se intercalam entre respiros leves e, outras vezes, arrancam o fôlego como um soco no estômago. Acompanhando um pouco do processo de montagem percebo que as mulheres da equipe conseguiram trazer muita delicadeza e perspicácia ao contar esta dura história. Não era uma tarefa fácil. Os desafios eram muitos, desde a animação de objetos – novidades para a atriz, até a construção da dramaturgia a partir de histórias reais. Tudo atravessado por um desafio contemporâneo: a pandemia do coronavírus, e tudo que veio a partir dela: isolamento, medos, crises - sanitária, econômica, social – etc. Suzi Daiane entra em cena com o olhar brilhante, carregado de histórias duras, de desafios, de sonhos, um olhar terno, firme, forte que atravessa o palco puxando a esperança como quem busca o leite de cada dia. É notória ali, já de entrada, a calma e a técnica da atriz, que é também palhaça, contadora de histórias, e que trabalha com diferentes formas animadas em cena. Igualmente, em todo projeto de criação, montagem e estreia da peça, aparecem coladas no corpo da atriz em cena, as memórias de uma mãe, mulher, lésbica, artista, que também é produtora, intérprete de Libras e audiodescrição. Todas estas vivências estão unidas não apenas ao corpo da atriz em cena, mas também às narrativas que a peça traz, seja mais abertamente ou mais subjetivamente. Uma dramaturgia riquíssima, muito bem articulada que soube equilibrar as emoções, escolher as principais histórias, e ser generosa com o jogo de objetos. O texto mistura biografia com ficção e é assinado por Suzi Daiane e Sandra Vargas - esta que também sabiamente dirige o trabalho. Para a pesquisa da dramaturgia foram coletados depoimentos da mãe e tias de Suzi, além de improvisações com objetos coordenadas por Jô Fornari e por Sandra Vargas, e resgate de memórias da atriz. Um trabalho árduo de limar histórias e que soube muito bem selecionar e entrelaçar o material, de maneira que o texto pudesse ser potencializado em cena, com os objetos e com a atuação. Um material precioso que merece uma publicação em livro. No bate papo após o espetáculo, na estreia, quase todas as pessoas presentes do público quiserem ficar para conversar e pediram a palavra. Entre elas chamou a atenção Adriana Niétzkar, que relatou como a peça “consegue explicar nessas cenas o que é ser mulher em diferentes espaços”. E fez isso respeitando as diferentes formas de “ser mulher”. O depoimento faz lembrar como o trabalho é urgente e importante também para a educação cultural de nosso país. Em pleno 2022 o Brasil ainda está entre os países onde mais se mata e se violenta mulheres e a população LGBTQIA+. Pelo levantamento feito pelo Observatório da Violência contra a Mulher, da ALESC – Assembleia Legislativa de Santa Catarina, (https://ovm.alesc.sc.gov.br/) só em Santa Catarina mais de 19.702 mulheres pediram proteção em 2021 por casos de violência contra mulheres. Este número mais que dobra se contarmos as subnotificações e as pesquisas da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Mulher, divulgadas pelo Observatório da ALESC, que revelam que 41,9% das mulheres ainda não denunciam. Não é por acaso que a igualdade de gênero está em quinto entre 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), na Agenda 2030, da ONU. O trabalho é um convite, pela arte, para repensarmos nossas maneiras de comportamento e sustentabilidade, e se mostra como um convite corajoso de ser quem se é. Por onde a peça se apresentar ela certamente permitirá importantes diálogos entre o público, disseminará informações, e se mostra como um espaço para escuta e acolhimento através da poesia. A atriz e palhaça Rafaela Catarina Kinas, atual presidenta da Federação Catarinense de Teatro, foi a mediadora da conversa, e reiterou a importância desse trabalho na sociedade. Catarina destacou como cada um foi sendo convocado a lembrar das suas próprias histórias e, sobretudo, como tem muita coisa não dita na peça que aparece de uma forma poética e muito forte. Estes relatos mostram como a peça consegue em poucos minutos abrir diversas narrativas e permite que o público se encontre nelas, seja por meio dos objetos que se transformam, pela dramaturgia, pelo figurino, pelo calor das velas, pelo frescor do bolo de criança com toda sua ingenuidade e força. A linguagem de teatro de objetos, escolhida para a peça, contribuiu para que o trabalho pudesse abordar temas tão densos sem perder o respiro. O caixão, o vestido da noiva rasgado perdendo brilhantes, o sapato de “machorra”, e o rabo de tatu na mão, se transformam em objetos cortantes que hora trazem o sorriso, hora denunciam o horror, hora marcam as lágrimas, e se transformam a cada passo da cena. Os objetos, ao serem manipulados e animados em cena, permitem se tornam disparadores da imaginação. Eles têm potência para, mesmo diante de situações de violência, trazer um respiro, uma poesia que permitisse abrir espaço o diálogo, reflexão e tomada de posição. Os desafios que a linguagem dos objetos traz consigo são muitos. Como fazer o objeto ter vida? Como o objeto pode potencializar a narrativa? A linguagem necessita que a montagem consiga refuncionalizar aqueles objetos para que possam contar e transformar as memórias da Suzi. O que vimos acontecer, por exemplo, magistralmente com: o rabo de tatu (e aqui não vou dar mais spoiler), o caixão, o vestido de noiva, a leiteira, o lenço vermelho, entre outros. Certamente, com o desenrolar das apresentações e das experiências vivas desses projetos em cena, cada vez mais eles vão se refuncionalizando e criando outras camadas na narrativa. Destaco aqui, por fim, uma das cenas mais impressionantes da peça, e que trago comigo, colada na pele (junto com a cena da leiteira): a cena da panela de pressão. Precisamente nesta cena aparece a técnica magistral dos objetos e da equipe de montagem da peça. Na cena, onde a personagem relata ter presenciado, quando criança, a violência do pai contra a mãe, na mesa de jantar, a panela de pressão deixa de ter apenas a função de panela de pressão, e consegue se vincular de maneira a tal ao exercício de imaginação, que conseguimos enxergar milhares de coisas a partir da mise en scène que a atriz faz com a panela. , num tempo-espaço mais lento é possível imaginar o feijão sendo jogado e escorregando por toda parede, o horror da violência, a força visceral da criança ao defender sua mãe, e, ao mesmo tempo, toda a força da atriz, na sua autobiografia em cena, remexendo e enterrando sua história, dizendo (sem dizer) “basta!”. Esta é uma das cenas em que mais a peça conseguiu o objeto se vincular a outras camadas de narrativas, possíveis apenas na arte, e delas permitir que o público fluísse não só pela imaginação, mas pela possibilidade de tomar uma posição diferente, diante do horror do mundo, daqui em diante. Tudo a partir de uma panela e uma baita montagem cênica! Quem assiste jamais diria que o trabalho passou por tantos desafios para ser criado, já que foi montado e estreado (junho de 2022) com o Brasil ainda em situação de pandemia por conta do coronavírus e num contexto de retomada de atividades culturais. O projeto foi contemplado com o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura (edição 2020). Um importante reconhecimento estadual de Santa Catarina, organizado pela Fundação Catarinense de Cultura com recursos do Estado de Santa Catarina, que mostra a força da produção cênica catarinense e feminina, já que a ficha técnica toda é apenas de mulheres. Por conta do isolamento, e de outro problema de saúde da equipe, foi necessário adaptar os formatos de montagem. Suzi e a assistente de direção Jô Fornari, que moravam próximas, passaram a fazer improvisações guiadas pela assistente de direção. Jô conta que além do objetivo de fazer os objetos resgatarem as memórias de Suzi, com muito respeito e escuta pelo tempo da atriz diante da sua autobiografia, era necessário também fazer com que os objetos deslocassem a atriz para outras possibilidades cênicas. Para isso a assistente provocou Suzi a compor cenas a partir de diferentes espaços da sua própria casa, já que estavam isoladas sem poder ter acesso a um espaço cênico ou uma sala maior. Assim, as cenas foram surgindo e, através de gravações, foram enviadas para a diretora Sandra Vargas em São Paulo, que dava indicações. Depois, num período que a pandemia permitiu encontros, Suzi e Jô puderam se deslocar para São Paulo e lá, em pouco tempo 15 dias conseguiram fazer o arremate final do trabalho. A direção e o entrelaçamento na dramaturgia feito por Sandra, em tão pouco tempo e de forma tão magistral, só mostra a qualidade dessa diretora tão importante para o teatro brasileiro, sobretudo as formas aninadas, nas quais o grupo Sobrevento se destaca. Detalhe da peça Rabo de Tatú (Laço Cia de Arte-SC). Foto EWM. Ficha Técnica da peça teatral Rabo de Tatú: Atuação: Suzi Daiane (Laço Cia de Arte-SC) Direção: Sandra Vargas (Grupo Sobrevento-SP) Assistente de Direção: Jô Fornari (Cia Andante-SC) Dramaturgia: Suzi Daiane e Sandra Vargas Produção Musical: Tetê Purezempla Cenografia e Figurino: Jô Fornari Produção: Bina Aparecida Intérprete de Libras: Clery Dreher Consultoria artística: Emanuele Weber Mattiello Arte Gráfica: Maria Luiza Fonseca e Suzi Daiane Grupo: Laço Cia de Arte Classificação: 16 anos. Para a montagem: o projeto foi selecionado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Apoio à Cultura - Edição 2020, executado com recursos do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense da Cultura. Confira esta peça e outros trabalhos da Laço Cia de Arte em: Instagram: https://www.instagram.com/lacociadearte/ Facebook: https://www.facebook.com/lacociadearte Blog: https://rabo-de-tatu.blogspot.com/ ** FONTES: DAIANE, Suzi & LAÇO CIA DE ARTE. Estreia da peça Rabo de Tatú e bate papo após a peça. Canelinha-SC: por meio do Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura (edição 2020) – FCC – SC, junho de 2022. (Depoimentos coletados pela autora durante o debate). LAÇO CIA DE ARTE. Debate - Processo de Construção Espetáculo Teatro de Objetos. Live com a equipe de criação da peça Rabo de Tatú na plataforma YouTube: canal Laço Cia de Arte. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4B8K6NRl5ew&t=12s OBSERVATÓRIO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. Florianópolis-SC: ALESC – Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Disponível em: https://ovm.alesc.sc.gov.br/ ONU, Organização das Nações Unidas. Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável - Agenda 2030 da ONU. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Abrindo as gavetas do sentir

 

As lembranças que temos do passado muitas vezes são misturadas. Uma história contada há 30 anos tem, depois do crivo do tempo, outro sabor.

Olhar para o meu passado e lembrar de muitas das minhas vivências sempre me foi um tanto distorcido. Costumo ter uma mente bem criativa e até mesmo um tanto dramática. Tenho a tendência a intensificar as histórias e, vez ou outra, até mesmo recria-las, explorando situações com mais romantismo do que de fato aconteceram.

Mas o fato é que eu sou uma mulher de 36 anos, hoje atriz, tenho uma trajetória de vida familiar repleta de violências, e cujo peso ainda me é significativo.  Poso dizer que muito do que vivi são além de dramas sutis.

Até o mês de setembro de 2021, minhas histórias eram apenas histórias. Eu as vivenciei, claro, na pele, no sentir, do dia a dia, porém em algum momento de minha vida, eu deixei todo meu arsenal de memórias traumáticas estacionados em alguma gaveta do meu sentir.

Talvez para esquecer, talvez para conseguir viver.

Quando me encontrei com minha mãe no mês de setembro e juntas reviramos nossas memórias desse passado tão custoso e dolorido, eu tinha constantemente a impressão de que estávamos nos jogando ao abismo. Pensava: estou fazendo a coisa certa? Não deveria tudo isto permanecer guardado?

Tudo o que vivenciamos, pareceu-me por muito tempo, uma memória bem inventada, desta atriz criativa que voz fala, mas ao conversar com minha mãe e ouvir, pela primeira vez, sua versão de nossa história juntas, entendi que tudo o que ela me dizia eu de fato tinha vivenciado. Não eram dramas ou traumas inventados, era sim, a verdade nua e crua sendo expurgada pela boca de minha mãe.

São verdades que pouco falamos. Verdades que não deviam ser pronunciadas em voz alta. Penso que além de mim, minha mãe, em alguma medida, guardou toda essa dor em suas próprias gavetas do sentir.

Lembro de ser muito pequena quando vi, pela primeira vez, meu pai batendo em minha mãe. Ele subiu em cima dela, sufocando-a, apertando seu pescoço até as veias saltarem. Eu não sabia o que fazer e nem como. Eu gritava porque minha mãe gritava.

Mesmo embriagado, alguns feixes de luz sempre recaíram sob meu pai. Assim, as fagulhas de consciência o tomavam por conta, e ele parava. Talvez fossem nossos gritos. O meu, de minha mãe e de minha irmã mais nova. Talvez os céus dizendo que minha mãe precisava viver.

Cenas como essa eram corriqueiras. O pior dia da semana era sábado de manhã. Pois nas sextas-feiras era dia de gandaia e meu pai saia a seu bel prazer copiosamente toda sexta-feira.

Saia de casa balançando o pênis, faceiro, indiferente as três mulheres que ele deixava em casa.

As madrugadas de sexta eram longas. Deitávamos na cama, eu, minha mãe e minha irmã. E juntinhas chorávamos. Eu e minha irmã chorávamos porque minha mãe chorava. Confesso que sinto saudade de nos três assim, juntinhas. Parecia que nos protegíamos. O mundo era so nos três.

Quando meu pai chegava la pelas tantas da madrugada. Minha mãe e ele discutiam muito. As vezes eu estava acordada e ouvia. Meu pai já embriagado, batia e batia nela. Minha mãe se calava depois de toda a violência. Meu pai dormia depois roncando alto. Minha mãe chorava.

E no sábado de manhã meu ele acordava o melhor pai do mundo. Arrependido, queria se desfazer dos maus atos da noite anterior. Nos comprava presentes, as vezes trazia aqueles doces de bar, bala, chocolate. E tentava nos comprar. Mas não comprava.

Foram 15 anos de muitas violências. Físicas e psicológicas.

A violência acontecia por qualquer coisa. Por discordarem em opiniões. Por minha mãe queimar o feijão, por que o gosto da carne não estava bom. Porque a roupa não estava bem passada. Porque a casa estava suja.  Ou simplesmente por uma cara estranha.

Foram muitas marcas. Muitas cicatrizes.

Minha mãe tem hoje uma perna mais curta que a outra. Uma clavícula deslocada. Marcas de cortes pelo corpo. Mas já teve olhos inchados e roxos, sua boca sangrando, dias sem poder comer, noites sem poder dormir. E medo, muito medo.

Como atriz olho pra tudo isso e penso: quanta potência ficcional em toda narrativa. Mas a história que agora narro não é de uma personagem distante. Mas a história de mim mesma.

A história de uma menina que aos 15 tentou suicídio por não suportar mais.

Aos 15 tomei todos os remédios do frasco de calmantes de minha mãe porque queria de uma vez por todas calar toda a violência, a dor, a morte, o medo, eu queria simplesmente não existir mais.

Quando meus pais me encontraram eu estava quase inconsciente. Meu pai me jogou no carro, não queria que saíssem notícias na rádio do meu fatídico ato. Minha mãe implorava pra ir junto e posso ouvir claramente ainda hoje os seus gritos dizendo: não faz isso filha, não faz isso.  

Meu pai não deixou que ela fosse. Deu um soco em seu rosto e a empurrou pra longe. Naquele alvoroço estavam vizinhos, curiosos, pessoas que queriam saber de onde vinham os gritos de minha mãe e o desespero que se anunciava.

Nenhum vizinho ajudou, denunciou ou se meteu. Minha mãe, tendo apanhado, chorou implorando ao meu tio, também vizinho, que a levasse ao hospital para ver como eu estava.

Eu acho que morri nesse dia de verdade.

E acho que nasci de novo quando resolvi montar esse espetáculo de teatro.

Todas essas memórias me atravessam pessoalmente e por vezes, sinto que não vou conseguir continuar a montagem. Mas aprovar um projeto de edital te coloca num lugar de responsabilidade que você tem pouco espaço pra fugir.  E que bom, porque continuo.

Em algum momento achei que não conseguiria deslocar a Suzi artista, da Suzi pessoa. E elas de fato caminham juntas. Porque ao narrar cada uma dessas histórias eu vivo e morro muitas vezes.

E renasço com mais força. E morro com menos dor. E ao relembrar, o peso também se modifica.  E nessa cura entre as várias Suzi’s me encontro motivada, instigada e preparando-me para trocar, abrir as portas do meu corpo de atriz para outras pessoas.

Abro meus poros pra sentir a dor e sinto. E abro-me pra cena pra ser inteira. As minhas memórias agora são do mundo.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Ser pequena - a história que nunca quis contar mas que precisava, pra ser grande

 A história que eu preciso compartilhar... 


Eu gosto de pensar que sou pequena.

Pequena porque me remete ao tamanho mesmo e quando se está acima do peso, sentir-se pequena é muitas vezes sentir-se menorzinha. Um tanto mais cabível dentro de si mesmo.

Mas não é só isso. Eu gosto de lembrar da minha eu pequena porque parece que ali eu carregava tanta inocência, numa vida com menos máculas do que outrora vivo. Sou. Represento.

Mas há um sentir-se pequena que me causa muita angústia. Que é quando me sinto pequena, frágil, menosprezada antes aos demais, aí sim, ser pequena dói.

Consigo pontuar quando me senti pequena na vida. Quando senti que achatavam-me até o chão propositalmente ou não para eu vislumbrar de um jeito bem raso mesmo a vida.

Lá de baixo, pisoteada muitas vezes, sentia-me pequena.

Então agora quero compartilhar algumas das vezes em que fui pequena. Sem meu desejo de assim o ser. 

Eu era pequena, tipo tinha 10 ou 11 anos. Lembro de estar vendo TV na cama da minha mãe com meu primo que não era tão pequeno, tipo 16 anos, do meu lado. 

A gente devia estar vendo desenho, coisa de gente pequena. Pra mim, no caso. E ele me aporrinhando. A cama era da minha mãe. Minha casa. Mas nem sei porque ele estava ali. Enfim, eu não entendi direito quando ele tirou o pênis pra fora e eu vi aquele negócio duro balançando ao sair da cueca. Ele disse: pega.

Eu não sabia porque ele estava fazendo aquilo. 

Eu só tinha visto o pintinho do meu primo menor, uma coisinha de fato pequena.

Mas meu primo era diferente.

Eu me assustei. Falei pra ele parar com brincadeira e tentei focar no desenho.

Senti-me pequena. Mas sem saber que me sentia pequena.

Era estranho. Era inusitado. Era grave.

Meu primo subiu em cima de mim. Eu devia estar de vestido ou saia porque não lembro de ele tirar minha roupa. Ele ria. Parecia uma brincadeira pra ele e eu estava ainda tentando entender que tipo de brincadeira era aquela. 

Colocou o pênis na minha pequena vagina. E me segurava não deixando eu me mover.

Ele era daqueles meninos atentados que vez ou outra me segurava com força em outras brincadeiras idiotas. Mas aquilo era estranho, doía e eu dizia: para com essa brincadeira.

Comecei a gritar pra ele parar e ele parou. 

Ele saiu do quarto correndo. E eu fiquei na cama achando que tinha feito uma brincadeira que minha mãe não aprovaria. Não porque era sexual. Mas porque tinha doído mais que um joelho ralado. 

Saí do quarto da minha mãe e fui pro meu. Fiquei com a respiração ofegante por um tempo. Já meu primo foi pra casa. Eu não lembro de nada. Exatamente nada sobre ele daquela época.

Da época que eu era pequena e me senti pequena.

Hoje não sou mais tão pequena assim, com 36, mulher feita, ainda me sinto pequena ao lembrar daquele dia.

Com 12, descobri como se faziam os bebês. 

Uma amiga, vizinha, tinha me pedido se eu sabia como se fazia.

Eu disse que sabia. Mas não sabia.

Então ela contou, com detalhes e numa proposta bem nojenta pra minha cabeça pequena, sobre o fatídico ato. 

Eu fiquei espantada. Lembro que disfarcei e fui pra casa.

De novo no meu quarto, lembro que chorei. 

Chorei sem entender direito o porquê chorava. 

Talvez porque eu achasse que estava grávida. Talvez porque tinha entendido que meu primo tinha tentado brincar de fazer bebê. E mais do que isso, tinha feito sexo comigo.

Eu fiquei um bom tempo achando que estava grávida. Chorava à noite. Nem era por conta de ter um bebê. Mas porque minha experiência com pênis era simplesmente terrível. Por que alguém se machuca tanto pra ter um bebê?

Era muito pra digerir.  

Não lembro como descobri que não estava grávida e quanto tempo durou esses medos e vivências.

Mas sei que hoje olho pra trás e eu acho bonito minhas coisas de menina pequena. Minha inocência pequena. Mas a história com meu primo nunca foi pequena dentro de mim.

Ocupou um espaço tão grande que só consegui falar dela quando cresci. Já tinha 28 quando entendi que precisava falar aquela história que dentro de mim era tão grande a me sufocar.

Sinto-me mais leve e mais pequena ao narrar. Abraço a suzi grande que guarda dentro de si um espaço enorme pra ser pequena.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Diário da Montagem - Relato poético da Jô

 Texto 1- ensaio 1 – cozinha do Moinho de inventos 

Era uma tarde fria de inverno. 

O sol entrava pela janela da cozinha e desenhava na toalha da mesa poemas de luz e sombra.

E assim começamos nosso inverno, recolhidas entre memórias, partilhas, objetos, lembranças, saudades e nostalgias. 

Ali envolta ao calor do sol e do passado -  que as vezes é o que aquece, outras é aquilo que ainda queima, que arde e que também nos move -  demos inicio a nossa caminhada na feitura do espetáculo “Rabo de tatu” que, começa com a avó da Suzi, mas que tbem é sua mãe e é a própria Suzi. 

E ali na mesa da cozinha, cenário de tantas vidas e acontecimentos cotidianos marcados na pele de muitas gerações, serão agora recolhidas e acolhidas.

Tantas mulheres que fazem parte de nós! Que se juntam , modelam, fermentam aquilo que somos hoje e talvez o que seremos amanhã. 

Diante de suas histórias, dos afetos, do passado embrulhado num vestido de noiva nunca usado; temos o presente e o futuro para, perpetuar ou transformar ou liberar ou apenas  remexer, entender, nos entender, encontrar nosso lugar de pertencimento, nosso lugar no mundo ali fora e  principalmnte, aqui dentro.

Não é só sobre elas, é muito mais sobre nós... aquilo que somos e aquilo que ainda queremos ser ou não.  

Conduzidas pelos objetos, que são o retrato de cada mulher ali sentada conosco ao redor da mesa, e que foram as testemunhas de muitas Lene, mari, maria, Tereza , avós, mães e filhas , demos início a costura feita a mão, de uma machada toalha de mesa, para um almoço em família, que talvez  nunca tenha acontecido antes.

Rabo de Tatu em Tradu-Circulação : E-book.

Para acessar click em: https://drive.google.com/drive/folders/1ZknoQj8wV7JG0gR6DFu1i1zbI4v-nprM?usp=sharing