sexta-feira, 30 de maio de 2025
Rabo de Tatu em Tradu-Circulação : E-book.
quarta-feira, 7 de maio de 2025
Rabo de Tatu em Tradu-Circulação: Desafios e Aprendizagens sobre o Teatro de Objetos e a Acessibilidade
quarta-feira, 9 de abril de 2025
Rabo de Tatu em Tradu-Circulação: O Projeto
quinta-feira, 23 de junho de 2022
Artigo - Que tal um casamento consigo mesma para recomeçar uma nova história?
quarta-feira, 25 de agosto de 2021
Abrindo as gavetas do sentir
As lembranças que temos do passado muitas vezes são misturadas.
Uma história contada há 30 anos tem, depois do crivo do tempo, outro sabor.
Olhar para o meu passado e lembrar de muitas das minhas vivências
sempre me foi um tanto distorcido. Costumo ter uma mente bem criativa e até
mesmo um tanto dramática. Tenho a tendência a intensificar as histórias e, vez
ou outra, até mesmo recria-las, explorando situações com mais romantismo do que
de fato aconteceram.
Mas o fato é que eu sou uma mulher de 36 anos, hoje atriz, tenho
uma trajetória de vida familiar repleta de violências, e cujo peso ainda me é significativo.
Poso dizer que muito do que vivi são além
de dramas sutis.
Até o mês de setembro de 2021, minhas histórias eram apenas histórias.
Eu as vivenciei, claro, na pele, no sentir, do dia a dia, porém em algum
momento de minha vida, eu deixei todo meu arsenal de memórias traumáticas
estacionados em alguma gaveta do meu sentir.
Talvez para esquecer, talvez para conseguir viver.
Quando me encontrei com minha mãe no mês de setembro e
juntas reviramos nossas memórias desse passado tão custoso e dolorido, eu tinha
constantemente a impressão de que estávamos nos jogando ao abismo. Pensava: estou
fazendo a coisa certa? Não deveria tudo isto permanecer guardado?
Tudo o que vivenciamos, pareceu-me por muito tempo, uma memória
bem inventada, desta atriz criativa que voz fala, mas ao conversar com minha
mãe e ouvir, pela primeira vez, sua versão de nossa história juntas, entendi
que tudo o que ela me dizia eu de fato tinha vivenciado. Não eram dramas ou
traumas inventados, era sim, a verdade nua e crua sendo expurgada pela boca de
minha mãe.
São verdades que pouco falamos. Verdades que não deviam ser
pronunciadas em voz alta. Penso que além de mim, minha mãe, em alguma medida,
guardou toda essa dor em suas próprias gavetas do sentir.
Lembro de ser muito pequena quando vi, pela primeira vez,
meu pai batendo em minha mãe. Ele subiu em cima dela, sufocando-a, apertando
seu pescoço até as veias saltarem. Eu não sabia o que fazer e nem como. Eu
gritava porque minha mãe gritava.
Mesmo embriagado, alguns feixes de luz sempre recaíram sob
meu pai. Assim, as fagulhas de consciência o tomavam por conta, e ele parava.
Talvez fossem nossos gritos. O meu, de minha mãe e de minha irmã mais nova.
Talvez os céus dizendo que minha mãe precisava viver.
Cenas como essa eram corriqueiras. O pior dia da semana era sábado
de manhã. Pois nas sextas-feiras era dia de gandaia e meu pai saia a seu bel
prazer copiosamente toda sexta-feira.
Saia de casa balançando o pênis, faceiro, indiferente as três
mulheres que ele deixava em casa.
As madrugadas de sexta eram longas. Deitávamos na cama, eu,
minha mãe e minha irmã. E juntinhas chorávamos. Eu e minha irmã chorávamos porque
minha mãe chorava. Confesso que sinto saudade de nos três assim, juntinhas.
Parecia que nos protegíamos. O mundo era so nos três.
Quando meu pai chegava la pelas tantas da madrugada. Minha
mãe e ele discutiam muito. As vezes eu estava acordada e ouvia. Meu pai já embriagado,
batia e batia nela. Minha mãe se calava depois de toda a violência. Meu pai
dormia depois roncando alto. Minha mãe chorava.
E no sábado de manhã meu ele acordava o melhor pai do mundo.
Arrependido, queria se desfazer dos maus atos da noite anterior. Nos comprava
presentes, as vezes trazia aqueles doces de bar, bala, chocolate. E tentava nos
comprar. Mas não comprava.
Foram 15 anos de muitas violências. Físicas e psicológicas.
A violência acontecia por qualquer coisa. Por discordarem em
opiniões. Por minha mãe queimar o feijão, por que o gosto da carne não estava
bom. Porque a roupa não estava bem passada. Porque a casa estava suja. Ou simplesmente por uma cara estranha.
Foram muitas marcas. Muitas cicatrizes.
Minha mãe tem hoje uma perna mais curta que a outra. Uma clavícula
deslocada. Marcas de cortes pelo corpo. Mas já teve olhos inchados e roxos, sua
boca sangrando, dias sem poder comer, noites sem poder dormir. E medo, muito
medo.
Como atriz olho pra tudo isso e penso: quanta potência ficcional
em toda narrativa. Mas a história que agora narro não é de uma personagem
distante. Mas a história de mim mesma.
A história de uma menina que aos 15 tentou suicídio por não
suportar mais.
Aos 15 tomei todos os remédios do frasco de calmantes de
minha mãe porque queria de uma vez por todas calar toda a violência, a dor, a
morte, o medo, eu queria simplesmente não existir mais.
Quando meus pais me encontraram eu estava quase inconsciente.
Meu pai me jogou no carro, não queria que saíssem notícias na rádio do meu fatídico
ato. Minha mãe implorava pra ir junto e posso ouvir claramente ainda hoje os
seus gritos dizendo: não faz isso filha, não faz isso.
Meu pai não deixou que ela fosse. Deu um soco em seu rosto e
a empurrou pra longe. Naquele alvoroço estavam vizinhos, curiosos, pessoas que
queriam saber de onde vinham os gritos de minha mãe e o desespero que se
anunciava.
Nenhum vizinho ajudou, denunciou ou se meteu. Minha mãe,
tendo apanhado, chorou implorando ao meu tio, também vizinho, que a levasse ao
hospital para ver como eu estava.
Eu acho que morri nesse dia de verdade.
E acho que nasci de novo quando resolvi montar esse espetáculo
de teatro.
Todas essas memórias me atravessam pessoalmente e por vezes,
sinto que não vou conseguir continuar a montagem. Mas aprovar um projeto de
edital te coloca num lugar de responsabilidade que você tem pouco espaço pra
fugir. E que bom, porque continuo.
Em algum momento achei que não conseguiria deslocar a Suzi
artista, da Suzi pessoa. E elas de fato caminham juntas. Porque ao narrar cada
uma dessas histórias eu vivo e morro muitas vezes.
E renasço com mais força. E morro com menos dor. E ao
relembrar, o peso também se modifica. E
nessa cura entre as várias Suzi’s me encontro motivada, instigada e preparando-me
para trocar, abrir as portas do meu corpo de atriz para outras pessoas.
Abro meus poros pra sentir a dor e sinto. E abro-me pra cena
pra ser inteira. As minhas memórias agora são do mundo.
quarta-feira, 21 de julho de 2021
Ser pequena - a história que nunca quis contar mas que precisava, pra ser grande
A história que eu preciso compartilhar...
Eu gosto de pensar que sou pequena.
Pequena porque me remete ao tamanho mesmo e quando se está acima do peso, sentir-se pequena é muitas vezes sentir-se menorzinha. Um tanto mais cabível dentro de si mesmo.
Mas não é só isso. Eu gosto de lembrar da minha eu pequena porque parece que ali eu carregava tanta inocência, numa vida com menos máculas do que outrora vivo. Sou. Represento.
Mas há um sentir-se pequena que me causa muita angústia. Que é quando me sinto pequena, frágil, menosprezada antes aos demais, aí sim, ser pequena dói.
Consigo pontuar quando me senti pequena na vida. Quando senti que achatavam-me até o chão propositalmente ou não para eu vislumbrar de um jeito bem raso mesmo a vida.
Lá de baixo, pisoteada muitas vezes, sentia-me pequena.
Então agora quero compartilhar algumas das vezes em que fui pequena. Sem meu desejo de assim o ser.
Eu era pequena, tipo tinha 10 ou 11 anos. Lembro de estar vendo TV na cama da minha mãe com meu primo que não era tão pequeno, tipo 16 anos, do meu lado.
A gente devia estar vendo desenho, coisa de gente pequena. Pra mim, no caso. E ele me aporrinhando. A cama era da minha mãe. Minha casa. Mas nem sei porque ele estava ali. Enfim, eu não entendi direito quando ele tirou o pênis pra fora e eu vi aquele negócio duro balançando ao sair da cueca. Ele disse: pega.
Eu não sabia porque ele estava fazendo aquilo.
Eu só tinha visto o pintinho do meu primo menor, uma coisinha de fato pequena.
Mas meu primo era diferente.
Eu me assustei. Falei pra ele parar com brincadeira e tentei focar no desenho.
Senti-me pequena. Mas sem saber que me sentia pequena.
Era estranho. Era inusitado. Era grave.
Meu primo subiu em cima de mim. Eu devia estar de vestido ou saia porque não lembro de ele tirar minha roupa. Ele ria. Parecia uma brincadeira pra ele e eu estava ainda tentando entender que tipo de brincadeira era aquela.
Colocou o pênis na minha pequena vagina. E me segurava não deixando eu me mover.
Ele era daqueles meninos atentados que vez ou outra me segurava com força em outras brincadeiras idiotas. Mas aquilo era estranho, doía e eu dizia: para com essa brincadeira.
Comecei a gritar pra ele parar e ele parou.
Ele saiu do quarto correndo. E eu fiquei na cama achando que tinha feito uma brincadeira que minha mãe não aprovaria. Não porque era sexual. Mas porque tinha doído mais que um joelho ralado.
Saí do quarto da minha mãe e fui pro meu. Fiquei com a respiração ofegante por um tempo. Já meu primo foi pra casa. Eu não lembro de nada. Exatamente nada sobre ele daquela época.
Da época que eu era pequena e me senti pequena.
Hoje não sou mais tão pequena assim, com 36, mulher feita, ainda me sinto pequena ao lembrar daquele dia.
Com 12, descobri como se faziam os bebês.
Uma amiga, vizinha, tinha me pedido se eu sabia como se fazia.
Eu disse que sabia. Mas não sabia.
Então ela contou, com detalhes e numa proposta bem nojenta pra minha cabeça pequena, sobre o fatídico ato.
Eu fiquei espantada. Lembro que disfarcei e fui pra casa.
De novo no meu quarto, lembro que chorei.
Chorei sem entender direito o porquê chorava.
Talvez porque eu achasse que estava grávida. Talvez porque tinha entendido que meu primo tinha tentado brincar de fazer bebê. E mais do que isso, tinha feito sexo comigo.
Eu fiquei um bom tempo achando que estava grávida. Chorava à noite. Nem era por conta de ter um bebê. Mas porque minha experiência com pênis era simplesmente terrível. Por que alguém se machuca tanto pra ter um bebê?
Era muito pra digerir.
Não lembro como descobri que não estava grávida e quanto tempo durou esses medos e vivências.
Mas sei que hoje olho pra trás e eu acho bonito minhas coisas de menina pequena. Minha inocência pequena. Mas a história com meu primo nunca foi pequena dentro de mim.
Ocupou um espaço tão grande que só consegui falar dela quando cresci. Já tinha 28 quando entendi que precisava falar aquela história que dentro de mim era tão grande a me sufocar.
Sinto-me mais leve e mais pequena ao narrar. Abraço a suzi grande que guarda dentro de si um espaço enorme pra ser pequena.
terça-feira, 6 de julho de 2021
Diário da Montagem - Relato poético da Jô
Texto 1- ensaio 1 – cozinha do Moinho de inventos
Era uma tarde fria de inverno.
O sol entrava pela janela da cozinha e desenhava na toalha da mesa poemas de luz e sombra.
E assim começamos nosso inverno, recolhidas entre memórias, partilhas, objetos, lembranças, saudades e nostalgias.
Ali envolta ao calor do sol e do passado - que as vezes é o que aquece, outras é aquilo que ainda queima, que arde e que também nos move - demos inicio a nossa caminhada na feitura do espetáculo “Rabo de tatu” que, começa com a avó da Suzi, mas que tbem é sua mãe e é a própria Suzi.
E ali na mesa da cozinha, cenário de tantas vidas e acontecimentos cotidianos marcados na pele de muitas gerações, serão agora recolhidas e acolhidas.
Tantas mulheres que fazem parte de nós! Que se juntam , modelam, fermentam aquilo que somos hoje e talvez o que seremos amanhã.
Diante de suas histórias, dos afetos, do passado embrulhado num vestido de noiva nunca usado; temos o presente e o futuro para, perpetuar ou transformar ou liberar ou apenas remexer, entender, nos entender, encontrar nosso lugar de pertencimento, nosso lugar no mundo ali fora e principalmnte, aqui dentro.
Não é só sobre elas, é muito mais sobre nós... aquilo que somos e aquilo que ainda queremos ser ou não.
Conduzidas pelos objetos, que são o retrato de cada mulher ali sentada conosco ao redor da mesa, e que foram as testemunhas de muitas Lene, mari, maria, Tereza , avós, mães e filhas , demos início a costura feita a mão, de uma machada toalha de mesa, para um almoço em família, que talvez nunca tenha acontecido antes.
Rabo de Tatu em Tradu-Circulação : E-book.
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