Tenho a impressão que todas as histórias do mundo se entrelaçam de alguma forma. Meu pedacinho de ser se conecta a todos os outros pedaços do mundo. Minha migalha de existência, porém, é repleta de uma infinidade de histórias.
Na tarde de quinta-feira, começamos por fim, o processo de montagem do espetáculo teatral Rabo de Tatu. Um projeto que cutuca minhas memórias e traz à tona histórias as quais guardei todo afeto e por vezes, escondi à sete chaves de mim mesma. Sentia medo, repulsa, ansiedade e angústia em expor parte da minha trajetória, como que se narrando, parte dela pudesse de alguma forma tomar vida e voltar a acontecer.
Tenho memórias lindas e outras, nem tanto. Essas pois, quando ditas em voz alta, compartilhadas, um tanto me amedrontam, um tanto me resgatam de uma suzi pequena que já fui e que jamais poderia deixar de ser.
O encontro aconteceu na mesa da cozinha. Sentadas muito próximas, eu, Suzi Daiane, integrante atriz mãe mulher deste projeto de teatro de objetos, estava de frente com Jô Fornari, também atriz das pequenezas e neste momento, auxiliar de direção de Sandra Vargas. Ela paciente me ouvia, sentia e respirava comigo minhas históiras. Ora tentando saber mais, ora querendo dividir as suas.
Na cozinha, parece que estávamos a separar os ingredientes de nossas memórias. Olhamos com atenção para minhas origens, selecionando ali os objetos especiais desse alimento que foi me abastecendo em toda vida.
Senti-me preenchida, isso porque ao olhar para minha avó, matriarca , materna, consigo notar nela a mulher que sempre quis ser. Queria tirar dali os ingredientes necessários para coser uma vida melhor.
Tenho a impressão que minha avó materna tinha o poder de mover o mundo. Ela, onze filhos, ao cuidar da casa, das roupas, da lida da vida doméstica, era a mulher exemplo. Ainda que forte, violenta em suas ações de educar, ela se impunha, ela tinha coragens que parece que sempre me faltaram.
Minha avó fugiu de casa pra casar, como diziam os antigos. Ela tinha pressa, como eu tantas vezes tenho. E na pressa e no amor, vieram 1, 2, 3 , 11 filhos.
Narrei pra Jô as histórias que conhecia dessa minha avó tão bendita. Sinto orgulho dessa mulher que nunca conheci, mas que sempre me passou uma imagem de fortaleza. Ela dava as ordens, ela era como “o macho” da casa.
Em todas as narrativas de minha avó materna, só consigo perceber que ela queria existir, clamava por ter sua própria vida, ainda que dentro de casa, enclausurada na lida doméstica, com seus onze rebentos.
Eu sinto que de alguma forma somos conectadas por uma energia que não sei descrever. Desde pequena no acerto ou no erro. Fico a imaginar minha avó abençoando lá do céu minhas escolhas. Lembro de fechar os olhos muitas vezes e dizer no meu silêncio: obrigada avó. Como se fosse ela responsável por algo que deu certo. Lembro também da vergonha que senti quando me assumi lésbica e pensava: será que ela me aceitaria? Logo depois entender que se ela está a me observar de fato, com certeza sabe da verdade do meu coração de sapatão.
Ouvi Jô, também falando de sua trajetória, e parece que em alguma medida olhar pra trás é meio parecido pra todo mundo. Minha família lageana parece um tanto com a família de São Domingos de Jô. Nesse aproximar sentia-me acolhida.
E sinto que minhas histórias são um pouco de Jô e as histórias dela também são um pouco minhas. Assim como as histórias de minha avó são eu. Assim como eu sou um pouco da minha avó. Somos todas mulheres, enclausuradas muitas vezes pelo patriarcado, que que cozinha nossa libertação.
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